Realidade do abastecimento de água no Recife
No bairro de Ibura de Baixo, em Recife, o cotidiano de Jeyne Araújo, de 27 anos, começa bem antes do amanhecer. A escassez de água se torna um desafio constante, uma vez que a comunidade enfrenta apenas seis horas diárias de abastecimento. Jeyne, assim como muitos moradores, precisa estocar a água, que frequentemente chega com qualidade duvidosa, repleta de produtos químicos e imprópria para o consumo. Essa precariedade no fornecimento de água não só impacta a saúde da população, mas também acarreta uma série de problemas financeiros, já que muitos são obrigados a comprar água mineral para garantir a segurança alimentar.
A intermitência do abastecimento é uma realidade crônica em Recife. Um estudo realizado pela Mongabay revela que 236 das 311 localidades analisadas convivem com esse problema. A escassez é especialmente severa para mulheres negras de baixa renda, que muitas vezes acumulam apenas 91 horas de abastecimento de água tratada por mês, enquanto bairros mais abastados têm acesso a mais de 700 horas mensais.
O impacto da falta de água nas comunidades periféricas
A falta de água em comunidades periféricas como Ibura e Linha do Tiro gera um ciclo de vulnerabilidade e risco. Além da intermitência no abastecimento, essas áreas são frequentemente afetadas por enchentes, problemas de saúde e insegurança alimentar. As moradores relatam não apenas a dor da falta de água, mas também o sofrimento de viver em locais sujeitos a deslizamentos e inundações, o que torna a luta pela dignidade hídrica ainda mais desafiadora.

Estruturalmente, Pernambuco apresenta uma das menores disponibilidades hídricas do Brasil, com apenas 1.270 m³ de água per capita anualmente. Essa condição crítica não só revela a escassez de recursos, mas também evidencia uma forte desigualdade racial no acesso à água. O quadro se agrava quando se considera que a intermitência no abastecimento ocorre com maior frequência nas comunidades de negros e pardos, marginalizados em um contexto de desigualdade social.
Desigualdade racial e econômica no acesso à água
O conceito de racismo hídrico se materializa nas disparidades no acesso aos recursos hídricos entre diferentes grupos sociais no Recife. Enquanto bairros como Boa Viagem e Apipucos desfrutam de um fluxo contínuo de abastecimento, as comunidades periféricas enfrentam a dureza do racionamento e da água de qualidade discutível. As evidências demonstram que a cor da pele e a origem econômica influenciam diretamente na capacidade de acessar um recurso essencial à vida, criando uma estrutura de desigualdade racial no acesso à água que perpetua ciclos de pobreza e exclusão.
Concessão parcial e suas implicações
Em meio a essa crise, a recente concessão parcial do abastecimento de água em Pernambuco, que inclui um investimento de R$ 17,4 bilhões, levanta preocupações sobre seus efeitos nas comunidades menos favorecidas. Especialistas temem que esse modelo de concessão possa aprofundar a desigualdade existente, com recursos concentrados em áreas mais rentáveis e deixadas de lado as comunidades vulneráveis, que ainda lutam por serviços básicos adequados.
Embora a proposta almeje melhorar o abastecimento, a lógica de lucro envolvida na privatização pode resultar em direitos hídricos retrocedendo ainda mais nas periferias. A crítica central é que a privatização não garante um compromisso firme com a universalização do acesso à água e pode significar que a gestão privada não se preocupa em atender áreas de risco ou onde os custos são mais elevados.
A luta pela dignidade hídrica
A luta por dignidade hídrica nas comunidades periféricas de Recife é uma batalha constante e desgastante. Moradores como Jeyne e Alessandra, que enfrentam quotidianamente a escassez de água e suas consequências, representam uma narrativa coletiva de resistência. A pressão por igualdade no acesso à água cresce à medida que a sociedade se conscientiza do racismo hídrico presente nas políticas públicas.
O futuro do abastecimento de água em Recife, e, por conseguinte, o futuro das comunidades que sofrem com a desigualdade racial no acesso à água, dependerá não apenas da gestão pública, mas da sensibilização e mobilização da sociedade em geral para exigir e garantir direitos básicos a todos os cidadãos.


