Derrota de João Campos deixa PSB sem governo e prefeitura

A derrota de João Campos para Raquel Lyra na eleição de 4 de outubro de 2026 marcou a primeira derrota eleitoral do ex-prefeito do Recife e tirou do PSB o governo de Pernambuco. O partido também ficou sem um prefeito filiado no comando da capital pela primeira vez desde 2006.

O PSB venceu quatro eleições consecutivas para o governo estadual, de 2006 a 2018, e quatro disputas pela Prefeitura do Recife, entre 2012 e 2024. Após a renúncia de João Campos, em abril de 2026, a capital passou a ser administrada por Victor Marques, do PCdoB.

João Campos, de 32 anos, concorreu ao governo estadual depois de comandar o Recife de 2021 a abril de 2026. A governadora Raquel Lyra, de 47 anos, foi reeleita no primeiro turno e conquistou sua segunda vitória consecutiva contra o grupo político de João.

A cientista política Priscila Lapa relacionou o resultado ao peso de Raquel como governante e ao possível desgaste dos Campos. A eleição também manteve representantes das famílias Campos-Arraes em cargos estaduais, enquanto consolidou a liderança de Raquel Lyra em um grupo político próprio.

Resultado da eleição e perda de espaço do PSB em Pernambuco

O ciclo do PSB no governo estadual começou com a eleição de Eduardo Campos, em 2006. O político foi reeleito em 2010, e Paulo Câmara ocupou o cargo nos dois mandatos seguintes, completando quatro governos consecutivos do partido, de 2006 a 2018.

Na Prefeitura do Recife, a sequência iniciada em 2012 teve dois mandatos de Geraldo Julio e dois de João Campos. A saída de João, em abril de 2026, deixou a administração municipal com Victor Marques, do PCdoB, que era aliado do ex-prefeito, mas não integrava o PSB.

A reeleição de Raquel Lyra no primeiro turno, em 4 de outubro, encerrou o período em que o PSB mantinha representantes à frente do governo estadual e da prefeitura da capital. A derrota de João Campos ocorreu numa disputa em que a governadora, filha de ex-governador, também representava uma família com tradição política em Pernambuco.

Trajetória de João Campos, campanha e fatores apontados para a derrota

Filho de Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes, João iniciou sua atuação pública em 2016, como chefe de gabinete do então governador Paulo Câmara. Em 2018, concorreu a deputado federal e foi eleito com a maior votação já registrada para o cargo em Pernambuco.

Na eleição municipal de 2020, sua primeira disputa majoritária, venceu no segundo turno Marília Arraes, sua prima, que na época era filiada ao PT. Aos 27 anos, tornou-se o prefeito mais jovem eleito para o Recife; em 2024, foi reeleito no primeiro turno com mais de 78% dos votos válidos, maior votação da cidade desde a redemocratização.



Em abril de 2026, João renunciou à prefeitura para disputar o governo estadual. Pesquisas realizadas mais de um ano antes da eleição o colocavam na liderança: levantamento Quaest de fevereiro de 2025 apontava 56% das intenções de voto para ele e 28% para Raquel Lyra. A partir de 2026, a governadora avançou, e uma pesquisa Datafolha de maio indicou uma virada, antes de a disputa voltar a ficar acirrada na reta final.

Para Priscila Lapa, cientista política e professora, o peso de Raquel como governante foi um fator relevante: a estrutura do cargo permite articular apoio de municípios e direcionar recursos, obras e investimentos. Lapa também apontou um possível cansaço com a família Campos, embora tenha avaliado que a derrota de João Campos não equivale a uma derrota de todo o grupo: Pedro Campos foi eleito deputado federal, Maria Arraes, deputada estadual, e Marília Arraes, senadora.

A presença dos Campos-Arraes na política pernambucana

A trajetória política dos Arraes em Pernambuco ganhou projeção com Miguel Arraes, que foi prefeito do Recife de 1959 a 1962 e chegou ao governo estadual em 1962. Deposto pela Ditadura Militar em 1964, passou mais de 14 anos no exílio e, depois de retornar beneficiado pela Lei da Anistia de 1979, voltou a ser eleito governador em 1986 e 1994.

Eduardo Campos entrou na política em 1987, como chefe de gabinete do avô, e foi eleito governador em 2006 e reeleito em 2010. Antes, havia sido deputado estadual e federal, além de secretário da Fazenda no governo de Miguel Arraes; em 2014, morreu em um acidente aéreo durante a campanha presidencial.

Desde o retorno das eleições diretas para o governo de Pernambuco, em 1982, a referência registra apenas uma eleição estadual sem nenhum integrante Campos-Arraes eleito: 2014. Em 2026, Marília Arraes conquistou uma vaga no Senado, Pedro Campos foi eleito deputado federal e Maria Arraes, deputada estadual.

A trajetória política da família Lyra

A base histórica da família Lyra fica em Caruaru, no Agreste pernambucano: João Lyra Filho, avô de Raquel, e João Lyra Neto, seu pai, foram prefeitos do município. Raquel também governou a cidade por dois mandatos, após ser eleita em 2016 e reeleita em 2020; em 2022, deixou a prefeitura para assumir o governo de Pernambuco.

João Lyra Neto foi vice-governador de Eduardo Campos entre 2007 e 2014 e assumiu o governo estadual após a renúncia do titular, permanecendo no cargo por oito meses. Fernando Lyra, irmão de João Lyra Neto e tio de Raquel, foi ministro da Justiça de 1985 a 1986, no governo de José Sarney.

Raquel foi eleita governadora em 2022 e reeleita em 2026, consolidando sua liderança política própria, segundo a análise de Priscila Lapa. No histórico eleitoral apresentado, houve quatro eleições estaduais sem integrante da família Lyra eleito: 1990, 1998, 2002 e 2018; nas demais, membros da família conquistaram mandatos de deputado, vice-governador ou governador.



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